sexta-feira, 17 de abril de 2020

Palavras para tempos de emergência



Você se lembra da primeira vez que deixou de abraçar alguém ao cumprimentá-lo?


Recordo-me vividamente como aconteceu comigo, e para minha surpresa, nem faz tanto tempo assim que às coisas começaram a mudar.

À pessoa fez aquele movimento de aproximação em minha direção.
Me afastei e expliquei me desculpando, mas muito sem jeito. Não sabia muito bem como atuar desse novo modo. Confesso que sofri por dentro. Pensamentos ainda muito confusos passaram pela minha cabeça. 
Como tocar o outro sem encostar? 
Sem o toque físico à que, especialmente nossa cultura brasileira (e mineira no meu caso) está tão acostumada?

Como acolher uma criança sem fazer-se colo que afaga e braços que confortam?

Em momentos de angústia e incerteza, nos voltamos para àquilo que nos é mais familiar e que portanto nos devolva à um lugar mais seguro.

Busquei então o que de mais essencial existe no humano: às palavras.

Somos seres de palavras. Fomos fundados nas palavras, e segundo a psicanálise às palavras são a matéria-prima do inconsciente.

Lembrei-me das tantas vezes que pude, eu mesma, conectar-me profundamente com alguém através de algumas poucas e boas palavras. 

Constatei também, uma e outra vez mais, do quanto se pode estar infinitamente distante, estando fisicamente tão perto!

São elas, às palavras, que nos introduzem no mundo e portanto, serão elas que nesse momento serão nosso suporte e alento.

Que elas possam ser abundantes  e criativas em suas diversas formas de manifestar-se.

E que sejam suficientes e na medida exata das possibilidades de fazer-se presente e sustentar os vínculos de afeto.

Aurea L. Pioli 

domingo, 10 de março de 2019

Fazer o luto na pós-modernidade



É consenso entre psicanalistas e filósofos contemporâneos, que vivemos um tempo em que somos impelidos ao mais de gozar. Vários são os apelos publicitários implícitos ou não, para a busca por felicidade, sucesso, beleza e até mesmo pela vida eterna. O “elixir da longa vida”, se presentifica através de cremes milagrosos, cirurgias e todo o tipo de promessas de juventude. 


Edward Munch - Melancolia
Até mesmo a forma como nos relacionamos com Deus mudou para adequar-se a este novo paradigma estabelecido na atualidade. Na Idade Média por exemplo, a conquista de fiéis se dava através da promessa de tesouros eternos no céu que poderiam ser alcançados através do pagamento das indulgências.  Hoje especialmente às religiões da chamada “Teologia da prosperidade”, pregam a busca por um tesouro muito mais palpável, a ser obtido aqui mesmo, e em conformidade com os desejos e expectativas desse tempo: fortuna, sucesso, juventude e felicidade.


Desse modo, nada é menos desejável nesses tempos líquidos (Bauman) do que o luto. Antigamente quando alguém morria, mostrávamos nossa tristeza através de atos simbólicos que eram compartilhados pela cultura. O luto era vivenciado em comunidade através das roupas, gestos e tradições. Especialmente nas pequenas cidades do interior do Brasil, era comum a presença das chamadas “carpideiras”, que eram mulheres contratadas para chorar nos velórios aonde eram entoados cantos e rezas. Entretanto, percebemos que a cada ano que passa, os velórios tem sido cada vez mais “assépticos” e de preferência, rápidos. 
 Em uma sociedade onde o luto não pode ser feito, pois se percebe o sofrimento da perda como algo a ser medicado, não é de se espantar que existam tantos melancólicos.
A dor pela perda deve ser vivenciada para que haja a simbolização da falta.  A morte não ressignificada retorna ao psiquismo na forma de melancolia.    Como disse Freud em seu texto de 1917 “Luto e Melancolia’, a sombra do objeto recai sobre o ego e a perda objetal agora se traduz como a perda de si.

Aurea L. Pioli 

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia das Mulheres e uma dica de série


          Existir um dia especial para comemorar o dia das mulheres já deveria ser fato suficiente para nos deixar em alerta. Longe de querer ser a “estraga-prazeres” neste dia, gostaria de também produzir um pouquinho de reflexão para um assunto tão urgente quanto o é, a questão do feminino nas sociedades ao longo dos tempos. 
Deixo então  uma sugestão de série para nos ajudar a refletir sobre estas questões. Afinal, é somente a partir do conhecimento que se podem mudar os destinos.

       “O conto da Aia” (Paramount – Fox Premium), uma série disponibilizada pelo NOW até a segunda temporada, é um desses filmes obrigatórios, pois alteram a maneira como olhamos para o mundo. À terceira temporada está prevista para agosto deste ano e confesso ser uma das pessoas que está ansiosamente aguardando a estreia. 
        Baseado no livro homônimo de Margaret Atwood, o filme deixa de ser uma distopia na medida em que a narrativa distancia-se da ficção e se aproxima assustadoramente da realidade.
    Assistir ao filme tem o efeito de tomarmos a “pílula da verdade”, ou seja, não é sem uma boa dose de mal-estar que se perpetua e presentifica no dia-a-dia a sensação de estarmos vivendo várias das situações retratadas no filme. Mas o maior estranhamento e sensação de soco no estômago, vem de perceber que vivemos o “tempo-todo-de-toda-a-vida” em situações muito semelhantes às do filme, como se estivéssemos dopadas para não enxergar uma realidade que sequer sabemos como efetivamente mudar.


       E é por este motivo que para além de brincar o “jogo-do-contente” dando uma de Pollyana, é preciso compreender que somente através de muita reflexão haverá possibilidade de um dia existirmos em um mundo mais igualitário e justo para todos, especialmente no que diz respeito ao gênero feminino.

       Ainda assim, neste "dia das mulheres", gostaria de prestar à minha homenagem à todas as mulheres que nos precederam, pois através delas, usufruímos de direitos cunhados ao preço de muitas vidas. 

      Iniciamos 2019 assistindo perplexos ao crescente número de casos de feminicídio e violência contra a mulher. Nessa hora percebemos que há muito ainda por ser feito. Um fazer que precisa de todas às mulheres, mas que pode ter uma eficácia ainda maior se for feito de mãos dadas, lado a lado com os homens.

       Parabéns à todas as Mulheres! Todos os dias!



Aurea L. Pioli







quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019



        



        O processo de envelhecimento da mulher é um momento de reavaliação da própria identidade feminina. 
        Este momento singular pode ser marcado por angústias que demandam elaboração psíquica dos conflitos e significados que emergem nesta fase da vida. Vários fatores contribuem para que surja uma demanda por ajuda, que em análise, pode ter a função de produzir criatividade e inventividade para incorporar às mudanças físicas, psíquicas e relacionais.


Aurea P. Gomes Ferreira


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Guia para o Natal e Ano Novo

 Datas tais como o Natal e Ano Novo tem a característica de estimular reflexões e potencializar sentimentos.
Ainda que não se queira pensar, é um período em que as pessoas são postas em contato com a família (ou a falta dela ou de um membro muito querido) , amigos (ou a falta deles), e principalmente em contato consigo mesmas. É um momento para repensar às conquistas do ano que passou  e planejar o ano que se inicia.
Exatamente por isso, em tempos em que as relações são mediadas pelas redes sociais, este pode ser um momento para sentir-se ainda mais sozinho e triste. Afinal, imagens de Pinterest e Instagram nos mostram , em geral, à família que não temos, à viagem que não fizemos, o amor que não conquistamos, ou ainda, a paixão que não vivenciamos. No face, os milhares de “amigos" risonhos sentados ao redor de mesas fartas, são sempre muito mais felizes do que nós.
Por este motivo, não importa muito se você é cristão ou ateu. E realmente pouco importa se a data do nascimento de Jesus é mesmo esta ou não.  Há 2018 anos atrás, nasceu um homem que marcou a história da humanidade e mudou a contagem do tempo no calendário. Muito para além de construções religiosas  e/ou  dogmáticas, há um conhecimento sobre o que é “ser humano “  que ao longo dos tempos surge para nos apontar à direção na figura de vários “homens”, Jesus é um deles. E indubitavelmente, especialmente no ocidente, somos atravessados por este simbólico.
Desejo então, que neste Natal, você possa pensar:
Que  cada dia que amanhece, é uma nova oportunidade para irmos na direção daquilo que realmente importa.
Que a alegria só tem sentido se puder ser compartilhada, mas que momentos de solidão são necessários espaços de encontro consigo mesmo.
Que os vazios,  são o melhor presente que se poderia ganhar porque eles são à própria liberdade criativa disfarçada.  Que você possa utilizar  tudo o que possui de singular em si mesmo, para encher de sentido esses vazios!
Que principalmente, você possa reconhecer-se em cada ser humano.
Que exercite a capacidade de olhar para além de imagens e até mesmo de palavras. E que  possa fazer da espera, a matéria-prima do encontro.
O encontro consigo mesmo  e com os outros!
Bons encontros! E feliz e corajoso 2019!
Aurea Pioli
Psicóloga





segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Alienação Parental


        Diante de separações ou divórcios, sendo estes litigiosos ou não, um dos parceiros do casal pode ensejar atitudes hostis com o propósito de afastar o filho do outro genitor. 

Esta prática, chamada de Alienação Parental, pode trazer muitos prejuízos à constituição psíquica da criança. 


        Na medida em que os pais conseguem respeitar o filho e não usá-lo como objeto de vingança, a criança adquire melhores recursos para suportar e elaborar a ruptura conjugal.


terça-feira, 20 de novembro de 2018

EXISTE RELACIONAMENTO AMOROSO SEM SOFRIMENTO PSÍQUICO?




Por: Patricia Vianna Getlinger

      Será que é possível minimizar ou eliminar a angústia e o sofrimento nas relações amorosas? Será que os casais contemporâneos que decidem abolir contratos preestabelecidos sofrem menos? Ou os acordos feitos “sob medida” por cada casal resultam em maior liberdade e felicidade?

     Por outro lado, o que pensar quando os “novos” acertos entre o casal falham? Quando mesmo tentando criar modelos mais livres para os relacionamentos, alguém se sente “de fora” e se incomoda em não ser o único nem o preferido? Afinal, o ciúme é uma emoção legítima, ou é vergonhoso ser ciumento? E indo além, é errado pretender um amor exclusivo?

     Temos visto surgir um número crescente de relacionamentos “abertos”, em que os parceiros (seja nas relações hétero, seja nas homoeróticas) buscam rever e redefinir conceitos como fidelidade e exclusividade sexual, abrindo a relação para a entrada de terceiros. Isso também ocorre nos casos de poliamor, que quando pretendem ser relações amorosas estáveis, pressupõem de forma mais evidente ainda a reconsideração da monogamia. Uma das observações mais interessantes quanto à dinâmica das relações abertas, é que elas costumam ter parâmetros particulares, criados pela dupla ou pelo grupo, que regulam e relativizam a “liberdade total”. Por que isso costuma acontecer?

     O que se observa é que em cada caso, embora geralmente se parta da intenção de não ter regras, acaba surgindo a necessidade de se estabelecer um acordo específico. Alguns preceitos organizadores de um relacionamento aberto, por exemplo, podem determinar que ter relações sexuais com outras pessoas não será considerado traição desde que todos estejam presentes na cena; ou que a intenção seja comunicada antes ao parceiro ou parceira; ou que tudo seja relatado depois; ou ainda, que não se chegue ao orgasmo com terceiros. Esses são alguns padrões cerceadores, mas o que nos interessa discutir, é: por que esses parâmetros se tornam necessários? Ou seja, por que, mesmo quando se tenta evitar certas convenções, elas são reinseridas pelos mesmos sujeitos que as tinham abolido?

     O que se verifica em qualquer relação amorosa, especialmente as não monogâmicas, é que prever ou controlar sentimentos como ciúme não é possível. Como saber se o “terceiro incluído” no casal não vai despertar uma paixão no meu companheiro ou companheira? E se eu flagrar um olhar mais intenso do que eu gostaria entre eles? No fim, sempre corremos o risco de que alguém se sinta menos importante, menos amado ou mesmo excluído. Mas, afinal, por que é tão desconfortável ficar de fora? 

     Desde a situação infantil de exclusão do casal parental, presente no modelo freudiano do filho fora do quarto dos pais, temos que lidar com esse desconforto e com a angústia que ele causa. A resolução do complexo de Édipo passa por adiar a fantasia infantil de parear com um dos pais e de deixar o outro de fora. Suportar a condição da própria exclusão exige da criança (e continua exigindo do adulto) que todos lidemos com o desejo onipotente de ser o mais especial e o centro das atenções. Requer que aceitemos a incompletude ou, em outras palavras, que elaboremos a castração simbólica.
Mas o processo de luto dessa posição onipotente é sempre inconcluso. E isso mantém a posição infantil sempre “à espreita”, buscando uma possível satisfação, que quando ocorre é muito prazerosa e de certo modo faz parte do equilíbrio psíquico. Assim, todos guardamos resquícios desse momento inicial de vida, que são reativados ao longo da infância e em muitas experiências ulteriores: querer ser o preferido dos pais com relação aos irmãos, tornar-se o queridinho da professora, atrair a admiração do chefe, ou mesmo chamar a atenção pelo aspecto inverso: ser o que dá mais trabalho, o que sempre perturba e recebe críticas etc. Em um caso e no outro, o que é satisfeito é o desejo infantil de sentir-se único, ser o eleito ou manter-se em evidência.

     Com o fim da infância, fazemos o luto (incompleto) dessa posição onipotente e mesmo percebendo, com maior ou menor dor, que os pais têm um ao outro, que os irmãos também são amados, que há outros alunos que cativam a professora e que não somos o eleito pelo chefe, continuamos precisando de reasseguramentos narcísicos desse tipo. E qual é a experiência posterior com maior potencial de restaurar os sentimentos de estar incluído e de ser sui generis para alguém?
O apaixonamento. Esse estado recupera a sensação prazerosa de ser o escolhido e de ser mais encantador do que todas as outras pessoas.  Ou seja, a paixão e o amar e ser amado restituem parte da ferida narcísica operada pela castração. Até aí, isso nos ajuda a compreender porque é tão bom se apaixonar. Mas, de onde vêm a angústia e o sofrimento nas relações amorosas, sejam elas “abertas” ou “fechadas”?

     Da ameaça de que esse estado idílico seja ameaçado e perdido. A alegria de reviver a ilusão de completude narcísica promovida pela paixão pode ser simultânea ao temor de sua perda. De fato, esse efeito paradoxal decorre dos indícios de que a sensação tão maravilhosa de reviver a onipotência infantil pode acabar, comprometida pela entrada de um terceiro que roube o nosso lugar e corte essa utopia, transformando-a num engodo.

     Talvez os novos relacionamentos abertos sejam uma tentativa interessante de tentar diminuir os efeitos nocivos da exclusão, definindo que ela não deve incomodar. O equilíbrio, entretanto, mostra-se instável, como demonstram o surgimento (e muitas vezes o aumento crescente) dos acordos particulares que dão contorno à liberdade total. Esses limites restabelecem o que fica “de dentro” e o que fica “de fora”, reeditando as fronteiras simbólicas do triângulo edípico e evidenciando seja a dificuldade de se relacionar com absoluta soltura, seja certo conforto diante de fronteiras claras. Negar a dependência afetiva e o prazer da exclusividade, buscando ser “evoluído” e não sentir ciúme, pode funcionar por um tempo. Mas não garante menos sofrimento nas relações amorosas. E, afinal, se podemos restaurar a experiência de ser único, mesmo sabendo que é ilusória, por que recusá-la?


*Patricia Vianna Getlinger é membro associado da SBPSP-SP e membro do Departamento de psicanálise do instituto Sedes Sapientiae

Publicado originalmente em:
https://psicanaliseblog.com.br/2018/11/14/existe-relacionamento-amoroso-sem-sofrimento-psiquico/