segunda-feira, 25 de junho de 2018

A mãe suficientemente boa



Por: Paulo Emanuel Machado
Publicado em: https://www.psicologiasdobrasil.com.br/mae-suficientemente-boa/
Para a Psicanálise, o indivíduo humano não é um objeto da natureza, mas um sujeito que, para existir, precisa do cuidado e atenção de outro ser humano. O psicanalista inglês D. W. Winnicott vai dizer que não existe o bebê, mas sim o bebê com sua mãe. Enfatiza que a mãe intervém como ativa construtora do espaço mental da criança, formando com ela quase que uma verdadeira unidade.
A mãe suficientemente boa ajuda a formar a mente do bebê, possibilitando-lhe a experiência da onipotência primária, base do fazer criativo: o bebê crê que ele cria o mundo. Essa percepção criativa do mundo é uma experiência do self, núcleo singular do sujeito. Winnicott acredita que a localização do self no corpo não é uma experiência dada desde sempre, mas sim fruto do desenvolvimento saudável.
A relação com a mãe leva o bebê a administrar a própria espontaneidade e as expectativas externas. A mãe suficientemente boa aceita, consciente ou inconscientemente, as expressões do bebê: a fome; os incômodos; o prazer; o desejo. Ela não impõe o que pensa ser o certo, mas permite ao filho ter experiências nas quais ele é sempre sujeito. Assim, o bebê forma seu verdadeiro self.
Se, por outro lado, o bebê é tido como objeto e se constrói em função da vontade alheia, o seu self será falso. O indivíduo será privado de liberdade, espontaneidade e criatividade. A mãe que não consegue ser suficientemente boa não proporciona ao bebê que ele se constitua como sujeito independente.
Winnicott explica que não é necessário a mãe ter uma compreensão intelectual de sua função ou tarefas. Para ele, a mãe está preparada para a mesma, em sua essência, pela orientação biológica em relação ao seu próprio filho. Implica mais o fato de sua devoção do que de sua compreensão para que seja suficientemente boa para obter sucesso nas primeiras etapas da vida do bebê. É exatamente quando ela confia em seu próprio julgamento que está em sua melhor forma.
A prática de executar o que lhe parece correto vai habilitá-la a descobrir e usufruir da plenitude da maternidade. Ela também se permite surpreender-se no contato direto com seu filho. Pois é, desse modo, ao se sentir livre para agir, que ela aprimora-se na função materna.
Inicialmente, como já foi sugerido, o vínculo entre a mãe e o bebê é muito intenso. Não apenas para a mãe essa experiência é forte e poderosa; também o bebê precisa desse tipo de ambiente protetor e confiável.
O adulto saudável, para Winnicott, é aquele que teve, na infância, nas primeiras semanas e meses, estabelecidos os alicerces de sua saúde psíquica. Para o bebê tornar-se sujeito, é imprescindível que o mesmo seja, desde o início, reconhecido como pessoa e não como objeto. Por exemplo, o bebê não se importa tanto que lhe deem a alimentação substancial na hora precisa, mas que seja alimentado por alguém que ama alimentá-lo.
Para constituir-se, o bebê não pode dispensar do prazer da mãe ao exercer sua função materna. Se cada tarefa do cuidado é executada com prazer isso é estruturante para o sujeito. Winnicott utilizará a seguinte metáfora: é algo como o raiar do sol para o bebê. O prazer materno de estar realmente presente nesta relação leva o bebê ao seu desenvolvimento pleno.
Entretanto se, para a mãe, cada tarefa ou toda a função materna é monótona, inútil, mecânica ou precária, o bebê não se estrutura. Definha ou adoece. Apesar disso, Winnicott enfatiza que cada bebê é uma “organização em marcha”: seu ímpeto para a vida, para o crescimento e o desenvolvimento é uma parcela da centelha vital que cada bebê carrega consigo. Daí sua esperança no que poderíamos denominar de “cura” terapêutica nos futuros adultos adoecidos.
Nos primeiros dias, é o padrão ou a técnica do cuidado da mãe que o bebê percebe, bem como os detalhes de seu mamilo, o formato de suas orelhas, a qualidade de seu sorriso, o hálito e outros aspectos físicos. Mais à frente, ele terá uma rudimentar ideia da totalidade da mãe, em certos momentos especiais. Independente do que o bebê possa ou não perceber, ele precisa que a mãe esteja constantemente presente como uma pessoa inteira.
Pois apenas pessoas inteiras – um ser humano total – podem amar e possuir o caráter necessário para exercer suficientemente bem a função materna. Decorre daí a afirmação de Winnicott que um bebê não existe sozinho, sendo essencialmente parte de uma relação.
Para o terapeuta inglês, a mãe é necessária como pessoa viva: o bebê deve sentir o calor de sua pele; deve prová-la e vê-la. Deve existir completo acesso ao corpo vivo da mãe.
Sem esta presença vital, nenhuma técnica, receita ou conselho valem. Porque a presença física real da mãe satisfaz necessidades emocionais profundas da criança. Nos primeiros tempos, dessa forma, o amor deve manifestar-se essencialmente em termos físicos. A vivacidade da mãe e sua orientação somática fornecem para o bebê um ambiente psicológico e primordial para seu desenvolvimento emocional.

Em seguida, a mãe é necessária para apresentar o mundo ao bebê. Ela é sua mediadora da realidade externa. Sendo uma pessoa total e agindo de modo suficientemente saudável, a mãe ajudará o bebê a desenvolver em si a convicção de que o mundo contém o que é amado e necessário. Cria no bebê esperança e confiança de que há entre a realidade externa e sua realidade interna uma relação viva. Tal harmonia e equilíbrio, sempre flutuantes, incentivam a capacidade criadora, inata e primária, e criam o mundo que é compartilhado por todos os humanos.
A terceira maneira em que a mãe é necessária está na capacidade materna de desilusionamento. Foi ela quem capacitou à criança a ilusão de que o mundo foi criado a partir de suas necessidades e imaginação. Agora, terá de levá-la através de um processo de desilusionamento, que constitui um aspecto mais vasto do desmame – ou poderíamos também dizer da castração.
O psicanalista inglês afirma que o que pode ser oferecido à criança é o desejo adulto de tornar a realidade suportável ao ponto em que se possa aguentar o terrível peso do cotidiano e dos imperativos da realidade. A mãe, levando o bebê à desilusão, abre para ele a possibilidade de desenvolver sua capacidade criadora. Com isso, ele pode crescer e constituir-se através de talentos amadurecidos e contribuir futuramente para a sociedade.
A mudança da ideia de necessidade para a de desejo indica um crescimento e uma aceitação da realidade externa com um enfraquecimento gradativo e consequente dos imperativos pulsionais. Inicialmente, a mãe – viva e total – deixou-se conduzir pelo bebê e foi até dominada por ele. Finalmente, a criança fica habilitada a livrar-se dessa relação dual e da dependência que pertence às fases iniciais de desenvolvimento. Winnicott, entretanto, deixa claro que, no seu pensamento, a mãe não poderá privar o filho dela própria (desmame, desilusionamento, castração) se antes não tiver significado tudo para a criança. Segundo ele, mantém-se o princípio de que o desenvolvimento emocional do bebê só pode ser bem consolidado na base das relações com uma pessoa que, idealmente, deve ser a mãe suficientemente boa.
A mãe – que conseguindo funcionar como um agente adaptativo – apresenta o mundo de forma a que o bebê comece com um suprimento da experiência de onipotência, constitui o alicerce apropriado para que a criança, depois, como já foi dito, entre em acordo com o princípio de realidade. Submeta-se à função paterna; à lei do pai. A realidade será, assim, suportada a partir da criatividade. Ou seja, da manutenção através da existência de algo pertencente à experiência primitiva e infantil: a capacidade de criar o mundo. Só a mãe suficientemente boa é capaz de se adaptar às necessidades do bebê para que ele não perceba que o mundo já estava lá antes que ele tivesse sido concebido ou concebesse o mundo.
De modo saudável, o bebê torna-se, então, preparado para encontrar um mundo de objetos e ideias e, segundo seu desenvolvimento, a mãe suficientemente boa é que lhe vai apresentando o mundo necessário e generoso. O resultado prático é que cada bebê começa com uma nova criação do mundo. Isso quando as coisas correm razoavelmente bem, como, para Winnicott, geralmente acontece. Se, entretanto, quando o bebê tiver que criar o mundo e ninguém estiver lá (ou seja, não estiver aí uma mãe suficientemente boa) a criança cairá num autismo ou numa esquizofrenia infantil. O ser humano que não começar a vida com a experiência de ser onipotente não tem chance de se tornar uma peça na engrenagem da vida
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
D. W. Winnicott, “A criança e o seu mundo”, Rio de Janeiro: LTC, 1982.
_ “Tudo começa em casa”, São Paulo: Martins Fontes, 2016.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Guia para momentos difíceis

Em momentos em que estiver sentindo-se angustiado e sem saída, experimente fazer este exercício:

Pare com todos os pensamentos que se tornam obsessivos em buscar uma saída. 
Apenas pare com todos eles. 
Respire.
Se puder, olhe para o céu.
Vá de encontro a natureza. Vá de encontro a si mesmo. 
Coloque-se no centro do furacão.  No centro do furacão não há caos, não há nada. Ou ainda, há o nada. E do nada, há todas as possibilidades, o início.

Amigos, ou um amigo, são importantes em alguns momentos difíceis. Então se tiver oportunidade, procure-os. Peça ajuda.
Mas acredite, a verdadeira força está em você.
Acredite em si mesmo.  Você já chegou até aqui. Vai conseguir.
Se perceber que é uma situação que se repete em sua vida, talvez seja o caso de procurar ajuda profissional. Afinal, não temos que dar conta sozinhos.

Por fim, tranquilize teu coração enchendo-o de amor. O amor nos traz a paz e serenidade necessárias para tomar decisões importantes de forma acertada. 
Sinta seu coração se encher de segurança e acolha sua dor com ela.

Vai passar, sempre passa. Mas você terá superado e seguirá com confiança na legítima busca pela felicidade.

Aurea L. Pioli


Oportunidade

E assim se vai mais um dia solitário
Você está economizando tempo mas está a milhas longe
Sua mosca estava se afogando em algum chá amargo
Por ter visto uma oportunidade perdida
Encontre seu espelho, vá e olhe para dentro
E veja o talento que você sempre esconde
Não engane a si mesmo, não hoje
A satisfação não está tão longe
Aguente firme agora, sua saída está aqui
Está esperando só por você
Não hesite por muito tempo
Está desaparecendo agora
Está tudo acabando muito rápido, você verá
Logo você verá
Seu café está quente, mas seu leite está azedo
A vida é curta mas você está aqui para florescer
Sonhe você mesmo ao longo de outro dia
Nunca deixe escapar uma oportunidade
Não tenha medo do que você não pode ver
O seu único medo é a possibilidade
Nunca se pergunte que diabos deu errado
Sua segunda chance pode nunca vir
Aguente firme agora, sua saída está aqui
Está esperando só por você
Não hesite por muito tempo
Está desaparecendo agora
Está tudo acabando muito rápido, você verá
Logo você verá
Aguente firme agora, sua saída está aqui
Está esperando só por você
Não hesite por muito tempo
Está desaparecendo agora
Está tudo acabando muito rápido, você verá

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Como conversar com meninas


              Este texto da Lisa Bloom nos faz pensar no quanto pequenas atitudes na educação das crianças podem modificar comportamentos sociais de décadas. Então da próxima vez que for conversar com uma menina, tente segurar o impulso de dizer apenas o quanto ela é linda para ressaltar e estimular outras qualidades e potencialidades que ela já tem ou pode desenvolver.

Como conversar com meninas



Eu fui a um jantar na casa de uma amiga na semana passada, e encontrei sua filha de 5 anos pela primeira vez. A pequena Maya tinha os cabelos castanhos e cacheados, olhos escuros, e estava adorável em seu vestidinho rosa e brilhante. Eu queria gritar, “Maya você é tão fofa! Veja só! Dê uma voltinha e desfile esse vestidinho rosa, sua coisinha linda!”

Mas eu não fiz isso. Eu me contive. Como sempre me contenho quando conheço garotinhas, negando meu primeiro impulso, que é dizer o quão fofas/lindas/bonitas/bem vestidas/de unhas feitas/cabelo arrumado elas são/estão.

“O que há de errado nisso? É a conversa padrão de nossa cultura para quebrar o gelo com as meninas, não é? E por que não fazer-lhes um elogio sincero para elevar suas auto-estimas? Porque elas são tão lindas que eu simplesmente quero explodir de tanta fofura quando as encontro, sinceramente.”

Guarde este pensamento por um tempo.

Esta semana a ABC News informou que quase metade das meninas de 3 a 6 anos se preocupam por estarem gordas. No meu livro, Think: Straight Talk for Women to Stay Smart in a Dumbed-Down World, eu revelo que 15 a 18% das meninas com menos de 12 anos usam rímel, delineador e batom regularmente; distúrbios alimentares estão em alta e a auto-estima está em baixa; e 25% das jovens mulheres americanas prefeririam vencer o America’s Next Top Model a ganhar o prêmio Nobel da Paz. Até universitárias inteligentes e bem sucedidas dizem que preferem ser ‘gostosas’ a serem inteligentes. Recentemente uma mãe de Miami morreu durante uma cirurgia estética, deixando dois filhos adolescentes. Isso não pára de acontecer, e isso parte o meu coração.

Ensinar as meninas que a aparência delas é a primeira coisa que se nota ensina a elas que o visual é mais importante do que qualquer outra coisa. Isso as leva a fazer dieta aos 5 anos de idade, usar base aos 11, implantar silicone aos 17 e aplicar botox aos 23. Enquanto a exigência cultural de que as garotas sejam lindas 24 horas por dia se torna regra, as mulheres têm se tornado cada vez mais infelizes. O que está faltando? Um sentido para a vida, uma vida de idéias e livros e de sermos valorizadas por nossos pensamentos e realizações.

Eu me esforço para falar com as meninas assim:

“Maya,” eu disse, me ajoelhando até ficar da sua altura, olhando em seus olhos, “prazer em conhecê-la”.

“O prazer é todo meu,” ela disse, com a voz já bem treinada e educada para falar com adultos como uma boa menina.

“Hey, o que você está lendo?” Perguntei, com um brilho nos olhos. Eu amo livros. Sou louca por eles. Eu deixo isso transparecer.

Seus olhos ficaram maiores, e ela demonstrou uma empolgação genuína, mas contida, sobre o assunto. Ela pausou, no entanto, tímida por estar com um adulto desconhecido.

“Eu AMO livros,” eu disse. “E você?”

A maioria das crianças gosta de livros.

“SIM,” ela disse. “E agora eu consigo ler sozinha!”

“Que incrível!” eu disse. E é incrível, para uma menina de 5 anos.

“Qual é o seu livro preferido?” perguntei.

“Vou lá pegar! Posso ler pra você?”

Purplicious foi a escolha de Maya, um livro novo para mim, e Maya se sentou junto a mim no sofá e leu com orgulho cada palavra em voz alta, sobre a nossa heroína que adora rosa mas é perturbada por um grupo de garotas na escola que só usam preto. Infelizmente, o livro era sobre garotas e o que elas vestiam, e como suas escolhas de roupas definiam suas identidades. Mas depois que Maya virou a última página, eu conduzi a conversa para as questões mais profundas do livro: meninas más e pressão dos colegas, e sobre não seguir a maioria. Eu contei pra ela que minha cor preferida é o verde, porque eu amo a natureza, e ela concordou com isso.

Em nenhum momento nós discutimos sobre as roupas, o cabelo, o corpo ou quem era bonita. É surpreendente o quão difícil é se manter longe desses tópicos com meninas pequenas, mas eu sou teimosa!

Eu falei para ela que eu tinha acabado de escrever um livro, e que eu esperava que ela escrevesse um também, algum dia. Ela ficou bastante empolgada com essa ideia. Nós duas ficamos muito tristes quando Maya teve que ir pra cama, mas eu disse a ela para da próxima vez escolher outro livro para lermos e falarmos sobre ele. Ops! Isso a deixou animada demais para dormir, e ela levantou algumas vezes…

Aí está, um pouquinho de oposição a uma cultura que passa todas as mensagens erradas para as nossas meninas. Um empurrãozinho em direção à valorização do cérebro feminino. Um breve momento sendo um modelo a ser seguido, intencionalmente. Meus poucos minutos com a Maya vão mudar a multibilionária indústria da beleza, os reality shows que diminuem as mulheres, a nossa cultura maníaca por celebridades? Não. Mas eu mudei a perspectiva de Maya por pelo menos aquela noite.

Tente isto da próxima vez que você conhecer uma garotinha. Ela pode ficar surpresa e incerta no começo, porque poucos perguntam sobre sua mente, mas seja paciente e insista. Pergunte-a o que ela está lendo. Do que ela gosta ou não gosta, e por quê? Não existem respostas erradas. Você apenas está gerando uma conversa inteligente que respeita o cérebro dela. Para garotas mais velhas, pergunte sobre eventos atuais: poluição, guerras, cortes no orçamento para educação. O que a incomoda no mundo? Como ela consertaria se tivesse uma varinha mágica? Você pode receber algumas respostas intrigantes. Conte a ela sobre suas ideias e conquistas e seus livros preferidos. Mostre para ela como uma mulher pensante fala e age.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O tempo




O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; o tempo está em tudo.
Rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é;  pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia; mas fica a salvo do malogro e livre da decepção quem alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível.
O tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranquilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores(..)
(Trecho de Lavoura Arcaica – Raduan Nassar)



"...Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas."

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Feliz bordado novo




        Se eu pudesse dar um presente de Ano Novo, daria àquilo que para mim,  especialmente em minha profissão, tem o poder de transformar: A PALAVRA


Mas não uma palavra qualquer, dita por dizer, de qualquer jeito, e apenas por repetir.  Mas uma palavra que representasse a singularidade do momento de cada um. 


Uma palavra que tivesse o poder de curar, motivar, transformar, aceitar, tranquilizar, compreender...

Entretanto, o maior de todos os presentes já te foi dado, você amanheceu 2018! 

Um novo tecido da vida foi te ofertado, assim como agulhas e linhas.


Desejo então  que você  se conheça tanto, mais tanto! Que possa recontar sua própria história.

Que conhecendo sua própria história, possa compreender cada capítulo dela, bem como às escolhas que fez a partir dela.

Que como consequência disso, possa também entender um pouco mais às escolhas daquelas pessoas que estão, ou estiveram muito próximas à você. Incluindo àquelas que te machucaram alguma vez.

E que finalmente, você possa olhar para si mesmo e para os outros com olhos de bondade e generosidade.

Foi te dado um novo tecido.
A escolha é sua, que bordado você fará em 2018?

Quais linhas escolherá para tecer o tecido de vida que lhe foi dado?

Feliz bordado novo! Feliz 2018!

Aurea Pioli



terça-feira, 12 de setembro de 2017

A moça tecelã


Até que ponto, séculos de uma cultura que sempre relegou à mulher a segundo plano, ignorando-a como um ser dotado de potencialidades e desejos que não só os de "cuidar e atender às necessidades do outro", não estariam internalizados em mim mesma e em todas as mulheres que compartilham comigo os desafios de conviver a um só tempo, com paradigmas tão dissonantes quanto os que se impõem para as mulheres nos dias de hoje?

Paradigmas esses, que ainda estão por serem quebrados à medida que procuramos por respostas à perguntas que antes nos pareciam já respondidas.


Existem ainda  muitos desafios a serem superados , e muitos outros papéis a serem assumidos e vividos de forma mais plena, e sem culpas.

Mas pelo menos, já tecemos algum caminho...

As mulheres que vierem depois de nós, certamente, já terão um esboço a seguir.

Esperamos que elas sejam ainda mais livres que nós

que possam amar muito mais,

e ser muito mais felizes.


Entretanto, se perceberem que o "bordado" não ficou como esperavam, que elas possam simplesmente desmanchá-lo, tal qual a "Moça Tecelã" fez,

que possam tecer outra história para si mesmas.





A Moça Tecelã

Por Marina Colasanti

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA


Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento

e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água

O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.

Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.

Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito

porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo

que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu que era capaz de ser

noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.

Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.

E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.

Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.

Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios com as suas peraltagens

e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos

– Manoel de Barros –